A Outra
“Do corredor, vejo Laila desenhada na parede pela luz do abajur. Digo baixinho: Cheguei! Vou só tomar uma chuveirada! No quarto ao lado, Raul não conseguiu me esperar: dorme com um carrinho na mão. O divórcio de umas horas atrás, o erro que foi o pai deles, minha vontade de escorrer inteira pelo ralo. Tenho que ser rápida. Estou pronta! Seus olhinhos cravam-se nos meus. Sento na cama. As mãozinhas estendem o livro na minha direção. Abro-o. Pigarreio forçosamente - sei o efeito: minha menina ri. Faz as vozes, mamãe? Faço. Embarcamos juntas e perdemos de vista o tempo. Quando o Chapeleiro anuncia que o relógio marca sempre a mesma hora, ela já imergiu em seu mundo de sonhos. Apago a luz.”. Isso não sai da minha cabeça. Fecho o diário a contragosto, saio do carro, levo-o comigo.
Quarto 3.
- Oiê! E aí? Como a senhora tá? Eu trouxe morango e doce de abóbora!
Mal-humorada, agita-se na cadeira:
- Pronta para ir pra casa! Cadê o espelho? Que difícil achar! Parece que vocês fazem de propósito!
Pego o que ela quer no guarda-roupa. Pouso-o diante de seu rosto, devagar. Ela sorri de canto de boca:
- Quem é essa aí?
Começo a desmoronar. Subo um pouco o tom:
- É você!
- Não sou eu, não! Não tenho cabelo branco, nem tanta ruga na cara. Essa aí tá acabada!
Brusca, empurra minha mão, afasta o objeto. Inspira. Pede por ele de novo:
- Quem é?
Desabo um pouco mais.
- É Ana!
- Ana? Quem é Ana?
- Ana é professora. Criou dois filhos. Gosta de andar pela cidade. De morango. E de filme espanhol.
Levanta uma sobrancelha:
- Ah! Lembrei!... Ela que lê história! Sinto... Esse olhar!… Ela quer que você me conte a história daquela menininha. Não é, Ana?
A outra no espelho acena um sim.
Tento pegar meus pedaços. Começo (sei de cor). Ela escuta, atenta. Caímos juntas no buraco, atrás do Coelho apressado. Cada parágrafo ecoa a mulher que conheci. Quando o Chapeleiro aparece, Ana já adormeceu. Corro ao banheiro, tento lavar o rosto, também quero escorrer, quase não resto. Raul salta na tela do celular: não virá. Nunca vem, meu irmão, eu já sei. Preciso voltar para o escritório. No portão, ouço pressa atrás de mim. É uma das cuidadoras. Sra. Laila! Sra. Laila! – e me entrega - está esquecendo seu caderno!
Mel Neves
Conto publicado na antologia “NÓS 2: textos de autoria feminina”, pelo Selo Off Flip em 2024, com o título: O Espelho. Versão revisada.
Foto: Mel Neves


